Machosfera e movimento redpill: como o radicalismo digital alimenta a violência contra a mulher

O que começa com vídeos sobre masculinidade e relacionamentos na internet pode evoluir para discursos de misoginia, controle emocional e incentivo à violência.

O que começa com vídeos sobre masculinidade e relacionamentos na internet pode evoluir para discursos de misoginia, controle emocional e incentivo à violência. É o universo da machosfera, conjunto de comunidades digitais que reúne grupos e influenciadores ligados ao chamado movimento redpill.

Especialistas ouvidos pela São Francisco 97.7FM dentro da campanha “Não Me Mate! Mais uma, menos uma. Até quando?”, da Fundação Frei João Batista Vogel, relataram preocupação com os efeitos da machosfera perante a sociedade.

Para o psicólogo Josué Mello, o ambiente funciona como um recrutamento emocional de jovens vulneráveis. Adolescentes com baixa autoestima, habilidades sociais limitadas e vínculos familiares frágeis são atraídos por influenciadores que prometem revelar “a verdade” sobre as relações entre homens e mulheres.

O nome do movimento faz referência ao filme Matrix: tomar a “pílula vermelha” seria enxergar o mundo sem ilusões. Na prática, segundo Mello, o que se vende é apenas outra ilusão, uma que canaliza sofrimento pessoal para o ódio, especialmente contra mulheres.

A única coisa que está faltando nesse tipo de discurso é cuidado“, afirma o psicólogo. Ele destaca que homens cooptados por esses conteúdos não sofrem menos. Eles sofrem mais, mas agora com um alvo para atacar.

 

Da tela para a vida real

advogada e pesquisadora Priscila Santana alerta que o problema vai além das telas. Para ela, esses discursos resgatam estruturas históricas de submissão feminina e encontram terreno fértil num país de dimensões continentais e desigualdades profundas. “Linguagem é poder”, afirma.

Quando normalizada, a linguagem misógina se instala no subconsciente e pavimenta o caminho para a violência física, incluindo o feminicídio, cujos índices seguem crescendo no Brasil, com quase seis mulheres mortas por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Especialistas defendem que o enfrentamento começa antes da agressão: na forma como meninos aprendem a lidar com emoções e no tipo de referência que a sociedade decide amplificar. Políticas públicas de conscientização são apontadas como parte das respostas necessárias a esse avanço.

A campanha “Não Me Mate!” busca ampliar esse debate e provocar a sociedade a agir. Para a 97.7FM, enfrentar a violência contra a mulher passa também por questionar as vozes que escolhemos ouvir, compartilhar e transformar em referência.