Julliana conta como os pequenos sinais de controle evoluíram para diferentes formas de violência e revela o que enfrentou para conseguir sair da relação.
A música voltou a fazer parte da rotina de Julliana de Freitas Pinheiro, de 38 anos, mas subir ao palco novamente ainda é também um exercício de coragem. Mãe, cantora e produtora cultural em Anápolis, ela passou quase uma década em um relacionamento que, segundo seus relatos e registros policiais, envolveu diferentes formas de violência, incluindo agressões psicológicas, físicas, sexuais e patrimoniais, além de tentativas de restringir sua liberdade.
Há cerca de quatro meses, Julliana deixou a residência onde vivia com o ex-companheiro e os dois filhos pequenos.
Hoje, ela está amparada por uma rede familiar, recebe acompanhamento psicológico e retomou a atividade profissional na música. Uma medida protetiva de urgência está em vigor contra o ex-marido. Ainda assim, episódios recentes mostram que o medo ainda faz parte da sua rotina.
Em entrevista exclusiva ao jornalista Jonathan Cavalcante, da Rádio São Francisco FM, Julliana decidiu falar não apenas sobre o que viveu, mas principalmente sobre os mecanismos que, segundo ela, fizeram com que permanecesse durante anos em uma relação abusiva, e sobre o que espera que outras mulheres consigam identificar antes que a violência avance.
O relato faz parte da campanha “Não Me Mate! Mais uma, menos uma. Até quando?”, criada pela Fundação Frei João Batista Vogel (FFJBV).
O controle que começa com pequenos sinais
Julliana conta que, no início do relacionamento, não identificava o que hoje considera sinais de controle. Segundo ela, os episódios começaram ainda nas primeiras semanas, com ciúmes e restrições que gradualmente se tornaram mais intensas.
“Com 20 dias de relacionamento, ele teve ciúme de uma pessoa dentro da igreja. E, desde então, todas as vezes que eu ia à igreja, eu não podia ir ao banheiro sozinha.”
Com o passar do tempo, o controle teria alcançado a comunicação, os deslocamentos e a rotina dentro de casa. Ela relata que precisava enviar fotografias, vídeos e localização para comprovar onde estava, além de ter o celular monitorado.
A cantora também conta que, depois do nascimento dos filhos, deixou o mercado de trabalho para se dedicar à família. A dependência financeira, segundo ela, passou a ser mais um elemento de vulnerabilidade.
“Então você começa a se sentir psicologicamente mal. E isso vai escalando, escalando e escalando. No meu caso, eu era culpada de tudo.”
Para Julliana, um dos pontos centrais para compreender por que uma mulher pode permanecer em uma relação abusiva é justamente a combinação entre dependência emocional, isolamento e falta de estrutura financeira.

Do cárcere ao palco: Julliana de Freitas revela os dez anos de violência que enfrentou (Foto: Arquivo Pessoal)
“Você começa a acreditar que realmente é louca”
Ao relatar a convivência com o ex-companheiro, Julliana descreve um padrão que, segundo ela, envolvia desqualificação constante, humilhações e manipulação emocional.
Ela utiliza o termo “narcisista” para descrever o comportamento que identificou no ex. A classificação, entretanto, é apresentada por ela como uma percepção sobre o comportamento vivido durante a relação, e não como diagnóstico médico.
Segundo Julliana, uma das características mais difíceis de enfrentar era a diferença entre a imagem que o homem apresentava socialmente e o comportamento que ela dizia experimentar dentro de casa.
“Eles são homens extremamente encantadores para os de fora. Então eles se escondem atrás de uma religião, eles se escondem atrás de uma profissão, eles se escondem atrás de uma comunicação incrível.”
Ela afirma que esse contraste contribuía para seu isolamento, porque, quando tentava falar sobre o que acontecia, sentia que sua palavra perdia credibilidade.
“Você, no final das contas, começa a acreditar que realmente você é louca. Você não produz nada. Você não é nada.”
Julliana relata ainda que passou a conviver com diferentes formas de violência, que, segundo ela, foram posteriormente identificadas e registradas pelas autoridades.

Julliana em entrevista ao jornalista Jonathan Cavalcante (Foto: Rádio São Francisco FM)
Violência sexual e a descoberta depois de sair da relação
Entre os relatos mais graves está o de violência sexual. Julliana afirma que sofreu estupro durante o relacionamento e que levou tempo para compreender que determinadas situações vividas dentro do casamento também configuravam violência.
Ela diz que, nos dois últimos anos da relação, os episódios teriam ocorrido com frequência.
“Eu vim entender que isso era estupro quando eu saí de lá. Porque a gente confunde muito, porque a gente é esposa.”
O relato, segundo Julliana, está relacionado aos fatos que foram levados às autoridades e aos documentos que integram o caso.
Ela afirma ainda que a violência não se restringia a ela e que os filhos foram expostos a situações de conflito e tensão dentro de casa.
“Eu não quero fazer desse espaço um espaço de vitimismo”
Apesar da gravidade dos relatos, Julliana afirma que não quer que sua história seja tratada apenas sob a perspectiva de vítima.
“Eu não quero fazer desse espaço um espaço de autoconsideração, nem de vitimismo, nem de terror. Porque eu sobrevivi.”
A preocupação dela, segundo explica, é transformar a própria experiência em alerta para outras mulheres.
Ela também rejeita a ideia de que uma mulher submetida a um relacionamento abusivo simplesmente permanece porque deseja.
“Não julguem. ‘Ah, por que você fica?’. Eu ouvi isso várias vezes. ‘Ela está lá porque ela quer’. Não é bem por aí.”
Julliana explica que, em muitos casos, a mulher pode estar emocionalmente fragilizada, sem independência financeira, afastada da família e sem condições psicológicas de romper imediatamente com a situação.

De volta aos palcos, Julliana fala sobre os filhos e a importância da rede de apoio (Foto: Arquivo Pessoal)
A saída de casa e o recomeço
A ruptura aconteceu há cerca de quatro meses. Julliana conta que saiu de casa levando poucas roupas suas e dos filhos.
Segundo ela, o filho mais velho chegou a repetir que queria deixar aquele ambiente porque não tinha paz.
Hoje, os dois meninos, de três e seis anos, estão sendo acompanhados e, conforme o relato da mãe, recebem cuidados psicológicos.
“Eles estão bem cuidados. Eles estão seguros. Eles estão seguros nesse momento.”
A saída, no entanto, não encerrou imediatamente as dificuldades. Julliana passou a depender do apoio da mãe e da irmã e relata dificuldades financeiras enquanto aguarda a regularização do pagamento de pensão dos filhos.
A mãe, segundo ela, cedeu o próprio quarto para acomodar Julliana e as crianças.
De volta aos palcos
Foi justamente a música, atividade que marcou sua trajetória profissional, que Julliana escolheu para reconstruir a própria vida.
Ela voltou a cantar em Anápolis e explica que a atividade permite conciliar o trabalho com a rotina dos filhos.
“Estou indo trabalhar. É o pão de cada dia.”
Para Julliana, voltar aos palcos representa mais do que uma fonte de renda. É também recuperar uma parte da identidade que, segundo ela, foi silenciada durante os anos de relacionamento.
“Eu quero, nesse momento, ter a chance de recomeçar, de cantar, de falar, de poder sustentar meus filhos, de poder criar, de poder sonhar.”
A rede de apoio
A reconstrução também tem sido possível, segundo Julliana, graças à família e aos amigos.
Ela destaca o apoio da mãe, Sônia de Freitas Borges Pinheiro, da irmã e de amigos que voltaram a fazer parte de sua rotina depois de anos de afastamento.
“Essa rede de apoio fez muita diferença. Fez muita diferença, tem feito.”
A cantora conta que, depois de retornar a Anápolis e realizar os primeiros shows, reencontrou pessoas que não via havia muitos anos.
Para ela, a experiência mostrou a importância de não enfrentar uma situação de violência de forma isolada.
O medo ainda faz parte da sua rotina
Mesmo depois da separação e com uma medida protetiva em vigor, Julliana afirma que novos episódios de perseguição e ameaças ocorreram. Em resumo, o medo continua.
O registro mais recente relata que ela passou a receber informações de terceiros sobre um perfil falso nas redes sociais. Segundo a ocorrência, o perfil teria publicado conteúdos manipulados, acusações contra Julliana e sua mãe, além de uma imagem íntima falsa atribuída à cantora.
Ainda de acordo com o registro policial, o perfil também teria feito publicações ofensivas envolvendo músicos que trabalham com Julliana. O perfil acabou removido pelo Instagram após denúncias.
Na mesma noite, por volta das 20h, um copo de vidro contendo bitucas de cigarro foi arremessado contra a porta da residência da cantora e provocou estilhaços. Segundo Julliana, os filhos estavam no local poucos segundos antes.
Ela suspeita que o ex-companheiro possa estar envolvido, mas ressalta que não presenciou o lançamento do objeto e que não possui, até o momento, comprovação da autoria.
A Polícia Militar e a Patrulha Maria da Penha foram acionadas. Câmeras de segurança existentes nas proximidades, inclusive de uma igreja localizada na esquina, poderão auxiliar na apuração.
Julliana apresentou prints e outros materiais para serem anexados ao registro e manifestou interesse em representar criminalmente contra o autor dos fatos.
Críticas ao atendimento às vítimas
Julliana também faz críticas ao atendimento que recebeu durante o processo de busca por proteção. Ela ressalta que fala especificamente a partir da própria experiência e não pretende generalizar.
Segundo ela, alguns questionamentos feitos durante atendimentos na Delegacia da Mulher foram percebidos como ofensivos ou inadequados diante da situação que enfrentava.
“Por que você não deixou ele antes?”
Para Julliana, esse tipo de abordagem pode fazer com que uma mulher já fragilizada se sinta novamente responsabilizada pela violência sofrida.
Ela defende que o acolhimento seja aprimorado e que vítimas encontrem, nos serviços de proteção, um ambiente capaz de compreender a complexidade da violência doméstica.

Sede da Delegacia da Mulher (DEAM) na Rua Amazílio Lino, em Anápolis (Foto: Jonathan Cavalcante)
“Eu vou sobreviver”
Ao final da entrevista, Julliana recorreu à música para explicar o momento que está vivendo. Ela cantou um trecho de “Apenas Mais Uma de Amor”, de Lulu Santos, canção que, segundo ela, representa a fase atual de sua vida.
“Eu vou sobreviver. Eu sobrevivi, Jonathan”, disse.
Aos 38 anos, ela diz que perdeu cerca de 20 quilos nos últimos meses, enfrentou dificuldades para dormir e comer e ainda convive com as consequências psicológicas do período vivido.
Mesmo assim, afirma que não pretende permanecer definida pelo que aconteceu.
“Não é vitimismo. É um espaço de recomeço, de superação, de criar forças de onde nem tem.”
A cantora diz que pretende continuar trabalhando, cuidar dos filhos e reconstruir sua carreira.
E deixa uma mensagem para outras mulheres que possam estar vivendo situações semelhantes: buscar ajuda, reconhecer os sinais de violência e não se culpar pelo que está acontecendo.
“Eu quero ter a chance de recomeçar, de cantar, de falar, de poder sustentar meus filhos, de poder criar, de poder sonhar.”
Para Julliana, a história ainda está sendo reconstruída. E, desta vez, ela quer que sua voz seja ouvida.